Uma boa premissa e um elenco de peso são desperdiçados em um suspense previsível, cheio de pistas óbvias e furos.
Na última sexta-feira, o Tio Du resolveu colocar a Netflix para trabalhar e assistir “O Homem que Sussurra” (“The Whisper Man”), novo thriller da plataforma baseado no livro homônimo de Alex North. Com Robert De Niro, Adam Scott e Michelle Monaghan no elenco, o filme tinha praticamente todos os ingredientes para entregar um bom suspense policial. Praticamente.
Isso porque “O Homem que Sussurra” é mais uma vítima daquele modelo de filme que parece ter sido feito para quem está assistindo com o celular na mão. É como se o roteiro tivesse medo de que o espectador não estivesse prestando atenção e, por isso, precisasse explicar absolutamente tudo o tempo inteiro.
E quando você percebe que o filme está fazendo isso, acabou boa parte do suspense.
ATENÇÃO: O TEXTO A SEGUIR CONTÉM SPOILERS DE “O HOMEM QUE SUSSURRA”. CONTINUE POR SUA CONTA E RISCO. NÃO VEM FALAR QUE EU NÃO AVISEI.
A ideia, pelo menos no papel, é boa. Temos um assassino em série conhecido como Homem que Sussurra, crianças desaparecidas, um retorno à ativa que parece ser feito por um copiador ou cúmplice, uma investigação policial, uma casa misteriosa e a relação complicada entre um pai e seu filho. O problema é que quase nada disso consegue funcionar tão bem quanto deveria.
O filme tenta construir um mistério, mas entrega as respostas antes mesmo de fazer as perguntas. Em determinado momento, você deixa de acompanhar a investigação para simplesmente esperar os personagens descobrirem aquilo que você já sabe há muito tempo.
Era óbvio que havia um corpo escondido naquele porão. O local praticamente parecia uma sepultura ou túmulo esperando para ser descoberta. Era óbvio que o “copiador” estava ligado diretamente ao assassino original (inclusive eu saquei que era o filho do cara antes mesmo da tal “conversa macabra” que eles tiveram na prisão). Era óbvio que aquela madeira no sótão iria quebrar quando o vilão estivesse exatamente naquele lugar.
E assim seguimos por boa parte da história, colecionando pistas que não são exatamente pistas, mas placas luminosas dizendo: “OLHE PARA ISSO, PORQUE ISSO SERÁ IMPORTANTE DAQUI A CINCO MINUTOS”. O resultado é um suspense sem muito suspense (o SABOR suspense).
A tentativa de criar uma atmosfera também não funciona como poderia. A direção de James Ashcroft utiliza alguns truques visuais para destacar objetos, ambientes e detalhes relacionados aos crimes, como se precisasse ensinar ao espectador quais são as pistas importantes.
Só que o filme acaba fazendo isso tantas vezes que perde justamente o elemento mais importante de um mistério: permitir que o público descubra as coisas por conta própria. É quase uma versão cinematográfica do “faça óbvio para que as pessoas assistindo com o celular na mão possam entender sem ver o filme todo”. E olha que a história tinha potencial para ser muito mais interessante.
Existe uma tentativa de brincar com elementos de serial killers clássicos, inclusive com uma espécie de inspiração no Assassino do Zodíaco. Só que a execução fica longe de entregar a mesma sensação de investigação.
Também não dá para ignorar algumas semelhanças que lembram personagens e situações de outras produções. O vilão chega a transmitir uma sensação de personagem que poderia estar em um episódio de “Dexter”, enquanto determinadas partes da investigação parecem uma versão enfraquecida de “Law & Order: SVU”.
Não é necessariamente um problema ter referências. O problema é quando você começa a assistir e pensa que já viu aquilo em algum outro lugar (e, pior, em versões melhores).
E aí chegamos ao elenco. Robert De Niro é Robert De Niro. É praticamente impossível reclamar da presença do homem em cena. Mesmo quando o material não ajuda, ele consegue entregar algo interessante simplesmente pela presença e experiência. Ainda assim, senti uma pegada Harrison Ford na atuação dele em alguns momentos, sabe? Aquela sensação de “nem queria estar aqui, mas estão me pagando, então bora”. Me identifiquei.
Michael Keaton também funciona bem. Pelo material de divulgação, imagino que a presença dele deveria ser aquele choque incrível, mas… Sério?
A atuação de Owen Teague, que interpreta o Francis Junior, acaba sendo melhor quando, veja bem, ele não aparece. Nas cenas que ele fica nas sombras, é misterioso e perigoso, ele parece ser mais doentio, mais inteligente e muito melhor dirigido. A partir do momento que ele passa a atuar, vemos uma tentativa pífia de emular um Hannibal Lecter com Norman Bates e Brian Moser (o irmão do Dexter), falhando em todas as tentativas.
Não vou me aprofundar muito na atuação de Hamish Linklater, que parecia ter começado muito bem, sendo uma versão do vilão da primeira temporada de “Dexter: Ressurreição”, interpretado pelo brilhante Peter Dinklage (o colecionador de artigos de serial killers), mas acaba sendo uma versão burra que tenta enganar que é esperta e se mata com mais um artigo óbvio que foi exibido minutos antes no filme e em mais um claro exemplo de “Hey, não vai embora, não desista do filme, olha essa outra cena forte do nada pra te dar uma dose de dopamina”.
E existe uma certa tristeza em perceber que estamos diante de mais um daqueles filmes em que grandes atores parecem ter sido contratados para tentar compensar um roteiro que não acompanha o talento deles.
Adam Scott é um ótimo ator. Michelle Monaghan também. Mas os dois parecem muito menores do que poderiam ser dentro dessa história. Não necessariamente porque suas atuações sejam ruins, mas porque a direção e o roteiro não conseguem dar vida suficiente aos personagens.
É como colocar jogadores excelentes em um time sem esquema tático.Você sabe que eles são bons. Só não entende por que ninguém está conseguindo jogar direito. Lembra o Real Madrid dos “Galácticos”? Tinha Ronaldo, Beckham, Figo, Zidane, Roberto Carlos e não ganhava par ou ímpar se valesse título?
E algumas escolhas do roteiro simplesmente não ajudam. A história envolvendo a “garota imaginária”, por exemplo, parece existir durante boa parte do filme sem uma explicação realmente convincente. Ela aparece, sabe coisas que não deveria saber e participa da construção do mistério, mas a sensação é de que sua existência está muito mais ligada à necessidade do roteiro de criar determinadas situações do que a uma construção realmente inteligente. E depois descobrimos que ela era a mãe do garoto (???) e quem descobre é o pai, que, bem… Não a via, não é mesmo?
É aquele tipo de elemento que deveria fazer você pensar “como isso se conecta à história?”, mas acaba provocando um “tá, mas por quê?”. E isso acontece várias vezes.
Quando chegamos ao final, “O Homem que Sussurra” sofre daquele problema clássico: “e agora, como eu termino esse filme?”. Depois de construir toda a história, o longa tenta amarrar rapidamente as pontas e entregar um final feliz para pai e filho.
Ao mesmo tempo, temos a policial que aparentemente sobrevive a uma quantidade absurda de facadas, sem praticamente nenhum apoio policial, porque aparentemente naquele universo a corporação inteira se movimenta a 2 km/h quando é para responder a literalmente um chamado dizendo “ACHEI O SUSPENSO NA CASA TAL”, mas se move na velocidade da luz quando uma chamada não identificada fala “Vi o garoto com um homem lá longe”.
E aí temos uma das situações mais estranhas do filme: o Homem que Sussurra pai matando o próprio filho. Não vou nem entrar na questão de como o rapaz deveria ter sobrevivido àquela queda, principalmente depois de bater o pescoço daquela maneira (um final que já estaria razoável). Mas o que realmente incomoda é a tranquilidade da situação. Ele simplesmente consegue matar o próprio filho depois de tudo o que aconteceu? Ou o filme vai tentar nos convencer de que ele já estava morto e aquela cena tinha outro significado? Se a intenção era criar uma grande revelação, para mim não funcionou.
E isso resume muito bem “O Homem que Sussurra”. A ideia é boa. O elenco é bom. A premissa tem potencial.
Não consigo opinar melhor sobre o livro, pois vou ser sincero e confirmar que eu não o li. A obra de Alex North provavelmente consegue desenvolver melhor vários desses elementos, principalmente porque existe espaço para aprofundar personagens, motivações e relações que o filme simplesmente passa correndo.
O problema está na execução.
A Netflix tem produzido alguns thrillers que parecem seguir uma fórmula muito específica: uma premissa interessante, atores conhecidos, fotografia suficientemente bonita para vender o trailer (eu mesmo comprei a ideia e fui enganado) e um roteiro que precisa explicar cada detalhe para ninguém se perder. “O Homem que Sussurra” cai exatamente nessa armadilha.
Não é um filme impossível de assistir. Pelo contrário. O ritmo até consegue manter você na frente da televisão. Dá para assistir enquanto come alguma coisa, tomar um refrigerante e chegar até o final sem vontade de apertar imediatamente o botão de sair. Eu mesmo assisti na madrugada de sexta-feira para sábado (e me arrependi amargamente por isso). Mas esse é justamente o problema. Ele funciona como passatempo, não funciona como um grande suspense.
Se você procura algo para colocar na Netflix em uma noite preguiçosa, provavelmente vai conseguir terminar. Agora, se você espera um thriller policial inteligente, cheio de tensão e com um mistério capaz de fazer você tentar descobrir o que está acontecendo antes dos personagens, pode procurar outra coisa.
E, infelizmente, é uma pena, porque “O Homem que Sussurra” tinha potencial para ser muito melhor. No fim, restam alguns bons atores, uma boa premissa e uma execução que parece ter medo de deixar o espectador pensar sozinho. A sensação que dá é que talvez eu tenha assistido errado. Talvez eu tinha que estar mexendo no celular e não assistindo uma tentativa de suspense.
Para o Tio Du, “O Homem que Sussurra” fica com nota 4,5 (de 10, importante falar). Talvez seja meu coração amargo por ter sido enganado por trailer e elenco estrelado ou por criar expectativa de ver uma obra nível Agatha Christie e me deparar com o episódio mais fraco de “Criminal Minds”. Talvez eu reavalie no futuro como fiz com “A Última Casa”, que eu assisti uma primeira vez e achei horrível e na segunda vez só achei ruim.

Ficha técnica:
“O Homem que Sussurra” (Título original “The Whisper Man”)
Estreia: 28 de agosto de 2026 (streaming)
Gênero: Suspense / Policial
Direção: James Ashcroft
Roteiro: Ben Jacoby, Chase Palmer, Alex North (autor do livro original)
Elenco: Robert De Niro, Michelle Monaghan, Adam Scott, Acston Luca Porto, Michael Keaton, Owen Teague, Hamish Linklater
Cenas pós-créditos: Não, graças a Deus.

