O novo filme do Teioso encontra o equilíbrio entre nostalgia, emoção e uma aventura finalmente focada em Peter Parker.
Na última quinta-feira, “Homem-Aranha: Um Novo Dia” finalmente chegou aos cinemas brasileiros, trazendo novamente Tom Holland na pele de Peter Parker e, dessa vez, com uma missão que parecia impossível: fazer o público esquecer um pouco o multiverso, as grandes conexões do MCU e devolver o foco para o garoto por trás da máscara.
ATENÇÃO: O TEXTO A SEGUIR CONTÉM SPOILERS DE “HOMEM-ARANHA: UM NOVO DIA”. CONTINUE POR SUA CONTA E RISCO. NÃO VEM FALAR QUE EU NÃO AVISEI.
E, curiosamente, esse talvez seja o maior acerto do filme. Depois de anos sendo colocado ao lado de grandes nomes como Homem de Ferro, Doutor Estranho e outros Homens-Aranha, Peter Parker finalmente ganhou espaço para ser simplesmente o Homem-Aranha.

Foi assim que o Tio Du foi assistir ao novo filme do Teioso. Na sexta-feira, na sessão mais tarde do Cinemark Guarulhos, peguei minha tradicional sessão de estreia do personagem. Como já virou padrão em filmes do Miranha, alguns fãs apareceram caracterizados para assistir ao longa. Inclusive, o próprio Tio Du entrou no clima e foi devidamente vestido de Homem-Aranha para conferir essa nova aventura.
E existe algo especial em assistir um filme do Homem-Aranha no cinema. Diferente de muitos personagens da Marvel, o público realmente tem uma conexão diferente com Peter Parker. Não é apenas sobre poderes, vilões ou grandes batalhas. É sobre um garoto comum tentando lidar com problemas que qualquer pessoa poderia enfrentar (ou a gente se identificar com um pobre e quebrado psicologicamente).
E “Homem-Aranha: Um Novo Dia” entende isso muito bem.
O filme não precisava me conquistar mais, mas incluir “Loser”, do Tame Impala, em sua trilha sonora e transformar a música em parte do ambiente da festa de MJ e Ned foi algo que me deixou em êxtase. A escolha da canção conversa perfeitamente com a temática do longa, principalmente pela letra e pelo clima da música, criando um daqueles momentos que parecem simples, mas ficam marcados (talvez não para todo mundo, mas eu, como fã da banda, sim).
É curioso perceber como a Marvel conseguiu fazer um verdadeiro mistão de propriedades diferentes neste filme. Agora que o estúdio possui os direitos dos X-Men, é engraçado ver uma personagem que originalmente pertencia à Fox aparecendo em uma produção da Sony com personagens da Marvel. Além disso, temos o Justiceiro, que veio da fase da Netflix; o Hulk, que ainda carrega questões relacionadas aos direitos da Universal; Yelena Belova, da própria Marvel Studios; e diversos elementos que poderiam facilmente transformar o filme em uma bagunça gigantesca. Mas isso não acontece. O longa consegue reunir todos esses personagens sem parecer apenas uma reunião de participações especiais. Eles estão ali porque existe uma função dentro da história, algo que a Marvel nem sempre consegue fazer quando decide apostar em conexões futuras.
E falando em personagens, uma das maiores surpresas positivas é a dinâmica entre Homem-Aranha e Justiceiro. Tom Holland e Jon Bernthal possuem uma química absurda. O contraste entre o herói que acredita em salvar todos e o vigilante que resolve problemas de uma forma muito mais extrema funciona muito bem, por mais que essa versão do Justiceiro seja MUITO mais amaciada por se tratar de um filme destinado a um público mais novo do que os que assistem às séries.
O conflito entre os dois rende alguns dos melhores momentos do filme. Facilmente eu assistiria uma série no estilo “Gavião-Arqueiro”, com uma aventura mais urbana e menor, protagonizada pela dupla Frank Castle e Peter Parker. Existe uma química ali que poderia render muito mais.
Inclusive, Tom Holland finalmente recebe um material que permite mostrar uma versão mais madura de Peter Parker. O ator sempre teve carisma e mesmo possuindo uma limitação na atuação em algumas produções, ele consegue entregar um personagem mais cansado, machucado e carregado pelo peso das próprias escolhas. Esse é um dos pontos mais importantes do filme: o Homem-Aranha está menos preocupado em salvar o universo e mais preocupado em sobreviver emocionalmente e isso aproxima novamente o personagem daquilo que fez Peter Parker ser tão querido durante décadas.
Zendaya também entrega um dos melhores momentos da franquia. Sem entrar em muitos detalhes, existe uma cena no terraço em que a atriz demonstra uma intensidade absurda, até quando estava “possuída” pela Jean Grey. Na minha sessão, algumas pessoas chegaram a bater palma durante o momento em que os personagens conversam (sério, o que está acontecendo com essa galera que perdeu a noção de como se comportar em público). Confesso que, para mim, era bastante óbvio que aquela situação não era exatamente o que parecia. Mas isso não diminui a força da cena.
Aliás, falando em Jean Grey, fica aquela sensação de que a Marvel terá um problema no futuro: nerfar a personagem. Porque se essa versão jovem já demonstra esse nível de poder, teoricamente ela poderia resolver diversos conflitos simplesmente paralisando ou destruindo seus adversários. E esse é um problema recorrente dos filmes e séries de heróis extremamente poderosos.
O Visão, por exemplo, teoricamente poderia simplesmente atravessar o Thanos. A própria Marvel já brincou com possibilidades semelhantes em “What If…?”. Wanda também mostrou um nível absurdo de poder em “Doutor Estranho no Multiverso da Loucura”. Mas, no fim, todos esses personagens precisam diminuir suas capacidades para que o roteiro funcione e provavelmente será exatamente isso que acontecerá com Jean Grey.
Outro ponto positivo do filme está nas cenas em que vemos um Homem-Aranha mais “Aranha” do que “Homem”. Existem momentos que parecem ter saído diretamente de uma cutscene de um jogo do personagem. Essa versão mais apelona do Teioso é incrível. Ele está mais rápido, mais brutal e muito mais próximo daquela sensação dos quadrinhos em que sabemos que Peter Parker é um dos heróis mais perigosos da Marvel quando realmente decide usar todo seu potencial.
E nem vou entrar no fato de que Tom Holland claramente está GIGANTESCO fisicamente para o papel. Mas nem tudo funciona perfeitamente. A grande questão do filme está justamente quando ele tenta equilibrar sua própria história com a necessidade de continuar alimentando o futuro do universo Marvel. Em alguns momentos, o longa ameaça perder o foco do próprio Peter Parker para preparar caminhos futuros.
Também existem algumas escolhas que geram aquela famosa vergonha alheia da Marvel. A cena de Bruce Banner dando aula e sendo interrompido por uma pergunta relacionada ao Hulk entra facilmente no hall de momentos constrangedores do personagem. É impossível não lembrar daquela cena de “Vingadores: Ultimato” envolvendo os filhos dos irmãos Russo, que também parecia deslocada e forçada. O Hulk merece muito mais do que algumas participações que parecem existir apenas pela piada.
Apesar desses pequenos problemas, “Homem-Aranha: Um Novo Dia” consegue algo que parecia difícil: devolver ao personagem sua essência. Depois de tantos filmes conectados, tantos universos e tantas ameaças gigantescas, o longa entende que o maior poder do Homem-Aranha sempre foi sua humanidade. Peter Parker não precisa ser o herói mais poderoso. Ele precisa ser aquele garoto que continua levantando depois de apanhar da vida.
Para mim, esse é facilmente o melhor filme solo do Homem-Aranha com Tom Holland e uma das melhores versões do personagem desde a era de Tobey Maguire. O filme não é perfeito, mas entrega exatamente aquilo que muitos fãs estavam pedindo: um Homem-Aranha que pertence ao próprio Homem-Aranha.
No resumo básico da avaliação do Tio Du, “Homem-Aranha: Um Novo Dia” recebe nota 8,5.

Ficha técnica:
“Homem-Aranha: Um Novo Dia”
Estreia: 29 de julho de 2026
Gênero: Ação / Aventura / Fantasia
Direção: Destin Daniel Cretton
Roteiro: Chris McKenna, Erik Sommers, Stan Lee (criador do personagem Homem-Aranha)
Elenco: Tom Holland, Zendaya, Sadie Sink, Jacob Batalon, Jon Bernthal, Trammel Tillman, Michael Mando, Mark Ruffalo
Cenas pós-créditos: Sim, uma após todos os créditos, mas totalmente descartável.

